quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

“Entre o curso e a vida”

Ela chega apressada, como se cada palavra precisasse correr para não ficar para trás. Fala de três horas de ida e três de volta, do novo trabalho, das metas de contenção física impostas pela Secretaria de Saúde — “é vida, né?”, diz, entre espanto e resignação. Há um excesso que atravessa tudo: o ritmo, as vozes, as decisões, o próprio corpo que se vê tomado pela urgência do mundo e pela necessidade de dar conta. Entre uma fala e outra, surge o verdadeiro impasse: trancar o curso ou mudar de cidade. Ficar perto dos sobrinhos e dos bichos, ou seguir com o sonho da formação. “Se eu ficar, perco a aula; se eu for, perco o afeto.” O cálculo é infinito. Cada possibilidade é uma peça movida no tabuleiro para adiar o xeque-mate da escolha. A culpa aparece como sombra de qualquer decisão: culpar-se por adiar, culpar-se por escolher. No fundo, trata-se de uma tentativa de escapar ao impossível da perda, a castração que toda escolha implica. Ela tenta prolongar a angústia para não decidir, como quem teme encontrar no ato o preço do desejo. O discurso se endereça ao analista na forma de demanda: __ “O que você acha que eu devo fazer?” Mas o que se escuta ali não é um pedido de conselho, é o apelo a um Outro que autorize seu desejo. A intervenção possível não é responder, mas devolver a pergunta deslocada: __ “O que seria bom para você?” É nesse instante que algo vacila. A fala, antes apressada, tropeça. Surge o espaço da falta, o início de uma escuta do próprio desejo, para além da culpa e do ideal de dar conta de tudo. A análise se orienta por esse vazio: fazer surgir o sujeito que fala quando o Outro não responde.

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