quinta-feira, 13 de novembro de 2025

“O choro como último ponto de fuga”

Paciente (voz quase inaudível, olhar baixo): Eu não consigo mais segurar... parece que tudo escapa. Eu começo a chorar do nada. No trabalho, no ônibus... em casa. Eu tento disfarçar, mas não dá. O choro vem... e vem forte. Parece que é o único lugar onde eu ainda existo. (Silêncio longo. O analista a observa, presente, respirando junto.) Analista (depois de alguns segundos): O choro... como um jeito de existir. Paciente: Sim. Porque quando eu choro... é como se eu me lembrasse de mim. Mas depois me culpo e fico achando que sou fraca, descontrolada. Analista: Talvez o choro não seja fraqueza, mas a parte de você que ainda tenta se manter viva. A que não aguenta mais segurar tudo sozinha. Paciente (começa a chorar, sem palavras por um tempo). (O analista não interrompe. O silêncio é acolhedor, continência corporal, presença silenciosa.) Analista (voz suave, após o fluxo de lágrimas): O corpo parece ter encontrado um modo próprio de falar... E você está conseguindo escutar agora. Paciente: É... eu acho que nunca tinha deixado ele falar tanto assim. Sempre calei. Mas hoje... parece que não dava mais. Analista: Ferenczi diria que às vezes o corpo grita quando as palavras ficaram tempo demais presas. E que esse choro, quando acolhido, pode virar palavra um dia, mas só depois que for sentido. (A paciente respira fundo, como se algo se abrisse.)

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