quarta-feira, 16 de agosto de 2023

A PSICANÁLISE TORNADA PÚBLICA

Historicamente, foi em Budapeste, no V Congresso Psicanalítico Internacional, nos dias 28 e 29 de setembro de 1918 (três meses antes do fim da Primeira Guerra Mundial) na Academia Húngara de Ciências, que Sigmund Freud proferiu um discurso avassalador para mais de quarenta psicanalistas e representantes dos governos húngaro, alemão e austríaco, entre outros convidados, onde alertava para um possível e necessário revisionismo nos procedimentos clínicos após o fim do conflito, convidando a psicanálise a repensar sua prática, indo muito além da neurose individual. Tratou-se, naquele momento, de um chamado aos psicanalistas para se disporem a realizar o trabalho clínico nas cidades dos países destruídos em consequência da guerra. Assim, seria possível ajudar as populações mais pobres a deixarem sua condição (Roudinesco, 2014, pág.215). A proposta, conduzida por Sigmund Freud, trouxe ao mundo do pós guerra a criação de clínicas públicas de atendimento psicanalítico gratuito, que resistiu entre 1920 e 1938, em uma Europa devastada pelo empobrecimento e abandono sócio-econômico e psíquico de grande parcela da população, instituindo o que se denominou “psicanálise nas situações sociais críticas”. É provável que o leitor possa imaginar a Europa num contexto de guerra, com grande parte das cidades devastadas e milhares de famílias dilaceradas, se espalhando o luto, a fome, a perda de direitos, entre outros agravantes. Para Freud, inserir a psicanálise no campo social seria fundamental para a sobrevivência de seu método e para tornar acessível o tratamento psicanalítico à sociedade de modo geral, especialmente aqueles que não podem pagar por um atendimento psicológico, este, até então, privilégio dos mais ricos. Nesse contexto, torna-se muito importante para a psicanálise esse trabalho de campo. Mas a recomendação apresentada por Freud ia para além disso tudo. Ele propunha uma intervenção da psicanálise social em tempos de guerra e vislumbrava essa atuação também em tempos de paz. Influenciou médicos, terapeutas, estudantes de medicina e de psicanálise a tornar acessível a terapia aos artistas, operários, agricultores, desempregados, etc, sem nenhum custo, num compromisso cívico com o bem estar da humanidade. A primeira e a segunda geração de psicanalistas, se envolveram intensamente na criação das clínicas e das instituições de formação, públicas ou privadas. Atuaram para além das clínicas operando nas escolas, nas fábricas, nos bairros operários, nas ruas e onde fosse necessário a presença da psicanálise. Somente em 1920, com o vírus da gripe espanhola como o inimigo a ser combatido, é que Karl Abraham, juntamente com Max Eitingon e Ernst Simmel, inaugurou o Instituto Psicanalítico de Berlim (Policlínica de Berlim), onde foram desenvolvidos tratamentos terapêuticos gratuitos para os menos favorecidos e pagos, em graus variáveis, para os outros pacientes (Roudinesco & Plon, 1998). Tal proposta terapêutica serviu de modelo para vários países e é até hoje praticada por diversas instituições psicanalíticas. Em 1922 surge a segunda clínica, o Ambulatorium de Viena; em 1926, Ernest Jones abre uma clínica pública em Londres e em 1929 Sándor Firenze funda sua clínica em Budapeste, ou seja, com o tempo, uma rede de clínicas e escolas gratuitas se espalha pela Europa devastada: Zagreb, Moscou, Frankfurt, Paris e até mesmo Nova York adere ao formato de clínica pública e gratuita, até que em 1938, os nazistas promovem o fechamento do Ambulatórium de Viena, sendo este o último a fechar suas portas. Até o início da escalada nazista (1933) houve um desenvolvimento surpreendente das clínicas gratuitas por toda a Europa. Com a ascensão da extrema direita, o movimento progressista psicanalítico foi silenciado, nos deixando a inspiração de resgatar uma parte importante desse legado histórico. A maioria dos psicanalistas da Europa central fugiu da perseguição do nacionalismo que invadia o velho continente. Mas a ideia de clínica pública não morre, apesar das amarras impostas. Era importante, mesmo que nos bastidores, dar continuidade numa resistência e ativismo político no contexto dos movimento sociais, pois as clínicas gratuitas personificavam o coletivo na psicanálise. No Brasil, muitos grupos de psicanalistas se articulam em movimento semelhante, principalmente a partir dos anos 1960: no Rio de Janeiro surge a Clínica Social de Psicanálise criada por Hélio Pelegrino e Anna Kemper em 1973. Em São Paulo, a partir de 1976, o psicanalista Jorge Bróide passa a atender crianças, adolescentes e adultos em situação de rua, vítimas de violência de Estado, com atendimentos em prisões e em clínicas sociais parceiras. Outros espaços de formação e atendimento social são criados, entre eles a Clínica Social do Instituto Gaio e o Instituto Gerar, o coletivo Psicanálise na Praça Roosevelt, todos de São Paulo, o Psicanálise na Rua, de Brasília, Psicanálise na Praça, de Porto Alegre, o Instituto Sedes Sapientiae, que uniu psicanalistas brasileiros e argentinos focados em um trabalho sério e criativo no campo social onde se permitem a criação de inúmeros dispositivos psicanalíticos e formas de atendimento fora do consultório, estimulando uma reflexão sobre a inovação da psicanálise na crise social, oportunizando aqueles que vivem em situações sociais críticas uma experiência de atendimento clínico, de falar onde há uma escuta, seja numa praça ou embaixo de uma ponte.

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