quarta-feira, 16 de agosto de 2023
URGÊNCIA SOCIAL
Para poder atuar do ponto de vista da higiene mental devemos conhecer com exatidão que tipo de ansiedade afeta o grupo social que estamos investigando em relação à loucura. (PICHON-RIVIÈRE. pág..01)
Chamamos de urgência social um emaranhado social que exclui o sujeito da possibilidade de se posicionar no laço social a não ser mediante a submissão ao outro e em discursos sociais que naturalizam e justificam sua exclusão. Segundo Rosa (2016, pág. 25), entende-se a urgência nas situações em que a falta de condições materiais que parcela da população é submetida se une a um discurso em que colocam o sujeito em posição de objeto, de submissão e desamparo discursivo.
A partir de uma atitude de escuta, as pessoas falam. E essa escuta é o que valida a ética na psicanálise. O pensamento clínico pode se dar em qualquer situação onde haja vida. A psicanálise tem que estar onde a vida está e ela se manifesta através da fala e da escuta. Quando o psicanalista escuta uma pessoa em situação de extrema complexidade social, que vive nas ruas e das ruas, ele se pergunta “como essa pessoa ainda está viva?” concluímos, ou pressupomos, que há algo que a liga a vida que nem nós e nem ela mesmo sabemos o que é. E que podem ser fios invisíveis que a psicanálise chama de ancoragem, fios que amarram as pessoas a vida. Geralmente essa ancoragem não é a família: pode ser um companheiro, um comerciante que o ajuda, um cachorro, um banco de praça, etc.
Seguindo uma linha de investigação que nos levará aos desafios da prática no campo da urgência social, podemos identificar alguns questionamentos fundamentais que farão parte do nosso caminho na construção e no manejo psicanalítico e na articulação de laços sociais. Tais questionamentos, que por hora são apenas três mas que naturalmente se multiplicarão a partir das demandas, são: se a gente pode atender dentro do consultório, porque a gente não pode atender fora dele? O que significa escutar pessoas que não tem a mesma situação social que nós, da classe média, e que vivem em outro mundo de relações e de experiência? Como podemos escutar essas pessoas nas ruas?
Buscando formatar algumas possíveis respostas às questões citadas, encaminho essas divagações. Para tornar acessível o tratamento psicanalítico a segmentos da população que dificilmente teriam acesso a uma experiência clínica, presenciamos, no Brasil dos últimos anos, a emergência de inúmeros dispositivos de atendimento abertos e gratuitos à essa população. Assombrada por uma perspectiva de que o tratamento só é acessível às camadas mais ricas, a psicanálise, através de grupos e coletivos com dispositivos públicos dos mais variados, rompe com este paradigma e vai às ruas, praças, viadutos e instituições, num movimento orgânico do campo social emergido na luta contra a ditadura imposta pelo regime militar a partir de 1964. Na certeza de que só o saber psicanalítico não é capaz de dar conta da complexidade que se apresenta na contemporaneidade, principalmente em situações sociais críticas, a psicanálise se apoia em saberes de diferentes campos, como na filosofia de Foucault, Deleuze e Zizek; na geografia de Milton Santos; na etnografia das cidades de Gilberto Velho e Roberto DaMatta; na sociologia de Bauman, entre outros pensadores. Foucault dizia que o dispositivo é uma relação em rede de saber e poder na qual se inscrevem a escola, o quartel, o convento, o hospital, a prisão, a fábrica, e não cada um deles de forma separada. Esses elementos devem se entrelaçar para estabelecer aí os dispositivos que constituem as subjetividades. Conforme Agamben (2010. pág. 25), para além de prisões, escolas e fábricas, o dispositivo também é a lapiseira, o cigarro, o celular e, porque não, a própria linguagem.
Verificamos que na contemporaneidade os dispositivos são renovados e/ou substituídos, gerando novas subjetividades, em variadas situações. E o dispositivo criado por Freud, que é o consultório, vai às ruas em busca do material inconsciente que emerge do grupo ou individualmente, devendo garantir uma escuta cuidadosa na demanda de urgência social, uma escuta denominada “escuta territorial”. Seja onde for, se escutarmos, o sujeito fala. E para isso, é necessário colocar o próprio corpo num mundo fora do setting analítico, onde explodem sons, cores, cheiros, estéticas, etc, num turbilhão de sensações, desejos e outros sentimentos que se colocam fora do nosso controle enquanto analistas. Se eu quiser conhecer o território, devo escutar os atores que ali habitam. Para essa empreitada obter êxito e para operar o inconsciente na transferência destas populações, temos que construir dispositivos clínicos diferentes do clássico poltrona e divã. Como bem observa Pichon-Rivière, a escuta clínica se desdobra no território.
A psicanálise vem sendo interrogada sobre o seu alcance e a sua capacidade de ajustar novas práticas e teorias a diversos tipos de instituições. Muitas são as demandas de colaborações feitas à psicanálise, como, por exemplo, no trabalho com moradores de rua, em abrigos, em hospitais, com menores infratores e em escolas. Esse é um momento de possível expansão da prática e da teoria psicanalítica porém, é um momento em que também se caracteriza uma problemática já que o psicanalista é confrontado a lidar com diferentes atores e contextos de trabalho, e instigado a abandonar dimensões do trabalho clínico tradicional e é questionado ao ter de trabalhar em conjunto com outros profissionais e com outros discursos que não o psicanalítico (Moura, 2000).
Desde a criação da psicanálise, a sua prática analítica sofre diversas alterações, tais como a instauração do divã, a duração das sessões, inclusão de materiais projetivos que auxiliam no trabalho com crianças, nas análises em grupo casal e análise institucionais. Abandonar o setting clássico exige esforço no sentido de confrontar novos dispositivos e enquadres teórico-conceituais. Para tanto se faz necessário articulações entre diversas áreas do saber e da prática, sendo capaz de desestabilizar os discursos hegemônicos instituídos. Estes são alguns dos desafios que a psicanálise enfrenta no campo da urgência social.
Esse dispositivo é o dispositivo da experiência inconsciente. O dispositivo analítico freudiano rompe com o discurso de sua época (positivista e cartesiano), introduzindo a noção de que a consciência representa a menor parte dos processos mentais, e há algo para além da consciência que deve ser escutado e elaborado. A escuta do inconsciente como dispositivo cria relações transferenciais possibilitando uma reapropriação daquilo que escapa ao sujeito da consciência. A fronteira entre sujeito e objeto se misturam possibilitando a experiência inconsciente.
A partir de uma atitude de escuta, as pessoas falam, e essa escuta é o que valida a ética na psicanálise. O pensamento clínico pode se dar em qualquer situação onde haja vida. A psicanálise tem que estar onde a vida está e ela se manifesta através da fala e da escuta. O método estará ancorado na revisão de literatura sobre o tema da psicanálise social, nas ruas, nas praças, nas escolas e nos lugares onde ela se faz ausente.
O lugar do psicanalista que hoje busca subverter a ordem capitalista posta a serviço da burguesia, é disponibilizar o processo de análise em sua completude e complexidade, não somente para os cidadãos elitizados que por sua posição privilegiada tem acesso irrestrito aos rescursos da psicanálise, mas também para os sujeitos marginalizados situados nas periferias.
Nos tempos atuais em que o Covid 19 nos impõe um “novo normal”, um isolamento sem precedentes onde cada um de nós experimenta o conviver perplexamente consigo mesmo, com seus familiares por um período contínuo e prolongado onde o isolamento impossibilita atividades socializantes, reduzindo o espaço do sujeito à sua casa, confinado, e sendo o Brasil o país com o maior número de pessoas com transtorno de ansiedade, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) – são 18,6 milhões de brasileiros, como anda esse processo de escuta nas ruas, praças, parques e demais espaços públicos? Que iniciativas no horizonte do atendimento à população carente e excluída vislumbramos? É evidente que a psicanálise não iria se esconder atrás de seus divãs. Ela percebe a necessidade de atravessar o tempo e resgatar as propostas de clínicas públicas de Freud e de centenas de psicanalistas que, nas décadas de 20 e 30, ofereceram tratamento a quem precisava.
O que vemos hoje é uma psicanálise que sai dos bairros privilegiados e vai ao encontro da escuta em lugares onde a demanda é nova e urgente: ao espaços públicos habitados por um sem número de desempregados, famílias despejadas pela atual (e constante) crise finaceira, homens e mulheres e crianças expulsas de suas casa pelas contingências mais intolerantes possíveis, pessoas que não podem pagar uma consulta. Esta é a realidade que temos e devemos transformar. Neste contexto, apreciamos os trabalhos de instituições como a Clínica Aberta, de São Paulo, Clínica Social de Psicanálise, no Rio de Janeiro, criada em 1973, por Anna Katrin Kemper e Hélio Pellegrino, entre outros coletivos organizados por profissionais da saúde mental.
É importante perceber que, dentre os benefícios da Psicanálise no contexto da saúde mental e pública, o que considero relevante é que, antes de tudo, ela é democrática. A clínica pública de psicanálise, a clínica na rua ou em instituições se torna um lugar para conversar sobre a vida, desabafar, falar de coisas difíceis que estão acontecendo. Com atendimentos individuais gratuitos, a psicanálise existe para quem a busca, sendo seu objetivo é escutar o sofrimento de uma determinada população que a busca. Essa conduta tem como objetivo fazer da psicanálise uma prática viável e relevante nos tempos atuais.
Freud coloca que a Psicanálise deveria ser direito de todos os cidadãos, ricos ou pobres. Ela deveria ser gratuita a quem não pode pagar, e em alguns casos, os atendimentos deveriam ser pagos pelo Estado (Ann Danto, E. 2019).
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