terça-feira, 21 de outubro de 2025

A psicanálise em urgência social: a escuta possível no tempo do impossível

A expressão urgência social designa um campo onde a exclusão, a violência e o desamparo não são exceções, mas o próprio tecido da experiência subjetiva. É nesse território que a psicanálise, frequentemente convocada de modo inesperado, precisa inventar novas formas de presença. Se nas origens, com Freud, a clínica se deu entre quatro paredes, hoje ela se abre ao espaço público, nas unidades de saúde, nos abrigos, nos serviços de assistência social, nos territórios afetados pela miséria e pelo colapso simbólico. A escuta analítica, deslocada de seu enquadre tradicional, mantém, porém, seu ponto ético: o sujeito. Na urgência, o analista não dispõe do tempo da transferência construída, mas de um instante de encontro. A operação analítica, então, reduz-se ao essencial: fazer existir um sujeito de palavra onde antes só havia demanda, queixa ou silêncio. É uma clínica de brechas, que aposta em um mínimo de simbolização possível. A direção do trabalho não é adaptar o sujeito às condições sociais impostas, mas possibilitar uma mínima inscrição do desejo, mesmo sob a pressão do real da exclusão. Cada gesto de escuta, cada palavra que não recua diante do sofrimento, reinscreve o sujeito na linguagem e é nesse ponto que a psicanálise se torna, mais do que nunca, ato político. Em meio à urgência, o analista não responde à pressa do Outro, mas sustenta a espera. Faz da precariedade um campo de invenção, e do impossível, um lugar de escuta.

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