terça-feira, 21 de outubro de 2025

Entre o mar e a palavra: o dispositivo analítico em movimento

Ela voltou depois de meses. Disse que não conseguia mais “ficar fechada” — nem em casa, nem no consultório. Falava de uma sensação de ar rarefeito, como se a vida tivesse se estreitado desde a morte do pai. “Preciso andar, senão travo”, ela disse, e esse pedido carregava algo do corpo que buscava reencontro com o ar, com o fora, com o movimento. Propus que caminhássemos à beira-mar, mantendo o mesmo horário das sessões. Não era uma concessão à demanda de fuga, mas um modo de sustentar o dispositivo analítico em outra topologia, onde o espaço aberto não dissolvesse o enquadre simbólico. O tempo, o pacto e o silêncio estavam ali. A diferença é que o som do mar agora fazia parte da escuta. Nos primeiros encontros, as palavras vieram em fluxo contínuo, como o passo sobre a areia. O ritmo da caminhada parecia convocar o inconsciente a se mover também: lembranças do pai, o hospital, o enterro, a casa vazia, o cheiro do café que ele fazia nas manhãs de domingo. Falava de saudade como quem fala de uma ferida que ainda respira. De repente, parou. Olhou o mar e disse: “É como se ele fosse ele. E eu, sempre tentando alcançar o que já foi levado.” O mar, ali, tornou-se figura simbólica do luto: o movimento incessante do que vai e volta, mas nunca devolve o que se perdeu. Naquele instante, o dispositivo mostrava sua potência: não se tratava da praia como cenário, mas do encontro com o limite, com a borda entre o dentro e o fora, o som e o silêncio, o vivo e o ausente. Em uma dessas caminhadas, ela perguntou: “Será que ele volta?” O silêncio que seguiu não buscou responder, mas deixou a pergunta cair no rumor das ondas, onde o eco do impossível pôde se inscrever. A cena revelou o essencial: a escuta analítica não se define pelo lugar físico, mas pela função simbólica que o analista sustenta. O mar tornou-se o outro da palavra: ali onde o sujeito toca a falta, o impossível de dizer. A praia, longe de ser um cenário terapêutico relaxante, operava como uma borda, o espaço onde o real se apresenta, onde o sujeito se arrisca a falar de novo.

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