sexta-feira, 10 de outubro de 2025
O impacto emocional de uma criança quando os pais se separam mas continuam residindo na mesma casa.
Essa é uma situação bastante complexa e, de fato, pode ter impactos emocionais significativos na criança, justamente por envolver uma ambiguidade de posições e funções parentais.
Quando os pais se separam, mas continuam morando juntos, o discurso e o laço entre eles mudam, mas o espaço simbólico da casa não acompanha necessariamente essa mudança. Isso cria para a criança um campo de confusão:
Confusão simbólica –
A criança percebe que algo se rompeu (há tensão, afastamento, mudança no tom afetivo, ausência de gestos de casal), mas o cenário concreto, os dois ainda sob o mesmo teto, sugere que “a família segue igual”. Essa incongruência entre o que é visto e o que é vivido pode gerar angústia e incerteza: “Eles estão juntos ou não?” “Quem sou eu nesse novo arranjo?”.
Impossibilidade de elaboração da perda –
Toda separação implica um trabalho de luto: a criança precisa simbolizar que a forma antiga da família acabou. Mas se a separação não se traduz em uma separação espacial, a criança não consegue elaborar a perda, ela fica presa num tempo suspenso, esperando o retorno da unidade familiar.
Risco de triangulação –
Em contextos assim, é comum que um dos pais busque na criança um apoio emocional, confidências, alianças contra o outro. A criança passa a ocupar um lugar impróprio, de parceiro simbólico, o que a sobrecarrega psiquicamente e pode gerar sintomas como ansiedade, culpa, somatizações, ou retraimento.
Ambivalência afetiva –
O ambiente doméstico tende a oscilar entre momentos de aparente normalidade e tensões latentes. A criança vive um campo afetivo ambíguo, que pode levá-la a hipervigiar os pais, tentando “ler” o clima e controlar o que acontece, uma posição que impede o brincar e o desenvolvimento espontâneo.
Risco de desmentido –
Quando os adultos afirmam que “está tudo bem” ou que “nada mudou”, a criança se vê diante de um desmentido da própria percepção. Isso pode produzir efeitos de desrealização, confusão de linguagem e até sintomas de tipo fóbico ou obsessivo, como tentativa de restaurar alguma ordem simbólica.
Em termos clínicos (orientação lacaniana):
A questão central é o lugar que a criança passa a ocupar no desejo dos pais após a separação. Se o casal se separa, mas continua coabitando, o risco é que o sujeito infantil fique preso ao gozo do Outro, sem poder se constituir numa posição própria, pois a divisão dos lugares parentais e amorosos não se reconfigura de modo claro.
O trabalho, nesse caso, tanto para os pais quanto na escuta da criança, seria introduzir significantes que permitam nomear e simbolizar a separação — dar-lhe lugar de palavra, e não apenas de fato vivido.
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