terça-feira, 6 de maio de 2025
A PSICANÁLISE COM ADOLESCENTES: OS DESAFIOS DO SÉCULO XXI.
A psicanálise com adolescentes possui especificidades importantes que a diferenciam do trabalho com crianças e adultos. A adolescência é um período de intensas transformações físicas, hormonais, emocionais, sociais e psíquicas, marcando a transição da infância para a vida adulta. Nesse contexto, a psicanálise oferece um espaço de escuta e elaboração para os desafios únicos dessa fase.
Principais Características e Como Funciona:
Setting Terapêutico Adaptado: O setting (ambiente da terapia) precisa ser flexível e adaptado às necessidades do adolescente. O divã, por exemplo, pode não ser adequado inicialmente. O analista pode optar por encontros "face a face" e incorporar outros recursos como desenhos, jogos (em menor grau que com crianças), filmes, músicas ou discussões sobre temas de interesse do adolescente para facilitar a expressão.
Linguagem e Comunicação: A linguagem do adolescente é muitas vezes marcada por gírias, silêncios, expressões corporais e acting-out (atuação de conflitos em vez de verbalização). O analista precisa estar atento a essas formas de comunicação, buscando traduzir e dar sentido ao que está sendo expresso, mesmo que não verbalmente.
Resistência e Desconfiança: Adolescentes frequentemente chegam à terapia por pressão dos pais ou responsáveis, o que pode gerar resistência, desconfiança e dificuldade em se engajar no processo. Construir uma relação de confiança e um espaço seguro é fundamental. O analista precisa validar os sentimentos do adolescente, sem julgamentos, para que ele se sinta à vontade para se expressar.
Foco nos Temas Adolescentes: Os temas trazidos pelos adolescentes geralmente envolvem:
Crise de identidade: Busca por "quem eu sou", dúvidas sobre sexualidade, identidade de gênero, valores e projetos de vida.
Relações: Conflitos com pais, irmãos, amigos, namoros, a pressão do grupo e a necessidade de pertencimento.
Corpo e imagem: Luta com as mudanças corporais da puberdade, questões de autoestima e a influência da mídia.
Estudos e futuro: Ansiedade em relação ao desempenho escolar, escolhas profissionais e o futuro.
Conflitos internos: Angústia, ansiedade, depressão, sentimentos de inadequação, raiva e frustração.
Experimentação e limites: Busca por autonomia, transgressão de regras e a experimentação de comportamentos de risco.
Transferência Específica: A transferência (relação emocional inconsciente que o paciente estabelece com o analista) com adolescentes pode ser intensa e marcada por idealização, rejeição, busca por figuras parentais substitutas ou até mesmo paixonites. O analista precisa manejar essas transferências com cuidado, ajudando o adolescente a diferenciar a figura do analista das figuras parentais e a elaborar seus sentimentos.
Trabalho com os Pais: O trabalho com os pais ou responsáveis é geralmente necessário, mas com cautela. O analista precisa equilibrar a confidencialidade da relação terapêutica com o adolescente e a necessidade de informar os pais sobre questões importantes, especialmente aquelas relacionadas à segurança do jovem. A colaboração com os pais pode ser fundamental para o sucesso do tratamento, mas o foco principal da análise é o adolescente.
Tempo do Tratamento: O tempo da análise com adolescentes pode variar bastante, dependendo da intensidade dos conflitos e do ritmo do paciente. É importante respeitar o tempo do adolescente e não forçar processos.
Objetivos da Análise: Os objetivos da análise com adolescentes geralmente incluem:
Promover o autoconhecimento e a elaboração dos conflitos internos.
Fortalecer o Ego e a capacidade de lidar com as demandas da vida.
Favorecer a construção de uma identidade mais integrada e saudável.
Melhorar as relações interpessoais.
Reduzir a angústia e os sintomas.
Estimular a autonomia e a capacidade de tomar decisões.
Desafios para o Analista:
Construir a confiança: Superar a resistência inicial e estabelecer um vínculo terapêutico genuíno.
Manter a escuta aberta: Acolher as diversas formas de expressão do adolescente, mesmo as não verbais ou disruptivas.
Tolerar a ambivalência: Lidar com as mudanças de humor e as contradições típicas da adolescência.
Equilibrar a neutralidade e o acolhimento: Ser um ouvinte atento e compreensivo, sem se aliar excessivamente ao adolescente contra os pais ou vice-versa.
Saber quando intervir: Encontrar o momento certo para as interpretações, sem ser invasivo ou prematuro.
Lidar com acting-out: Compreender as atuações como formas de comunicação e trabalhar para que o adolescente possa verbalizar seus conflitos.
A psicanálise oferece aos adolescentes um espaço valioso para explorar seus mundos internos complexos, encontrar sentido em suas experiências e construir um caminho mais saudável para a vida adulta. Requer do analista sensibilidade, paciência e uma escuta especializada para as particularidades dessa fase do desenvolvimento.
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