terça-feira, 6 de maio de 2025
POR QUE MENTIMOS PARA NÓS MESMOS?
Na visão psicanalítica, mentimos para nós mesmos, ou seja, acionamos mecanismos de defesa, por diversas razões fundamentais, todas ligadas à necessidade de proteger o Ego de conteúdos psíquicos que seriam dolorosos, ansiogênicos, ameaçadores ou inaceitáveis para a nossa consciência.
Aqui estão os principais motivos:
Evitar a dor e o desprazer: O princípio do prazer, fundamental na teoria psicanalítica, nos impulsiona a buscar o prazer e evitar a dor. Verdades sobre nós mesmos podem ser extremamente dolorosas (reconhecer falhas, traumas, desejos considerados imorais, etc.). A mentira para si serve como um analgésico psíquico imediato, evitando o confronto com essa dor.
Preservar a autoestima e o narcisismo: A imagem que construímos de nós mesmos é importante para a nossa saúde psíquica. Reconhecer aspectos negativos, inadequações ou fracassos pode abalar essa imagem e ferir nosso narcisismo. Mentir para si mesmo ajuda a manter uma visão idealizada de nós, mesmo que distorcida da realidade.
Lidar com a culpa e a vergonha: Desejos, fantasias ou ações que consideramos moralmente errados ou socialmente inaceitáveis podem gerar intensa culpa e vergonha. A mentira interna permite negar ou distorcer esses aspectos, aliviando o peso dessas emoções.
Manter a coerência e a estabilidade psíquica: O Ego busca a coerência e a estabilidade. Confrontar contradições internas, desejos ambivalentes ou experiências traumáticas pode gerar um grande desconforto psíquico. A mentira para si ajuda a criar uma narrativa interna mais consistente e a manter um senso de identidade estável, mesmo que baseado em ilusões.
Reprimir desejos inaceitáveis: O inconsciente abriga desejos que a consciência considera proibidos (sexuais, agressivos, etc.). A mentira para si pode envolver negar a existência desses desejos ou racionalizá-los de forma a torná-los mais aceitáveis, evitando o conflito entre o Id (pulsões) e o Superego (moral).
Repetir padrões familiares ou internalizados: Inconscientemente, podemos repetir padrões de negação ou distorção da realidade aprendidos em nosso ambiente familiar. Se crescemos em um ambiente onde certas verdades eram evitadas, podemos internalizar essa forma de lidar com a realidade.
Resistir à mudança: Confrontar a verdade sobre nós mesmos muitas vezes implica a necessidade de mudar, o que pode gerar ansiedade e resistência. A mentira interna pode ser uma forma de evitar essa mudança, mantendo o status quo, mesmo que disfuncional.
Em suma, a mentira para si mesma, na perspectiva psicanalítica, é uma estratégia inconsciente de autopreservação psíquica. Embora possa trazer alívio imediato, a longo prazo, ela impede o acesso à verdade sobre si, dificultando o autoconhecimento, a resolução de conflitos e o desenvolvimento de uma saúde mental mais robusta. A terapia psicanalítica busca justamente desvelar essas "mentiras" internas, tornando o inconsciente mais consciente para que o indivíduo possa viver de forma mais autêntica e integrada.
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