quinta-feira, 29 de maio de 2025

FERIDA NARCÍSICA

Na psicanálise, "ferida narcísica" (ou "ferida narcísica do ego") refere-se a uma experiência subjetiva de abalo ou ruptura na autoimagem idealizada que o sujeito tem de si mesmo. É um conceito importante, especialmente nas obras de Freud e no desenvolvimento posterior da teoria psicanalítica. A ferida narcísica ocorre quando o sujeito se depara com algo que frustra, humilha ou desafia sua crença em sua própria completude, valor ou importância. É uma ameaça ao narcisismo, ou seja, à forma como o sujeito se ama, se reconhece e se idealiza. Em Freud: Freud usou a ideia de ferida narcísica em diversos momentos, inclusive em um sentido civilizacional. Ele propôs que a humanidade sofreu três grandes feridas narcísicas na história: * Ferida cosmológica: quando Copérnico demonstrou que a Terra não era o centro do universo. * Ferida biológica: com Darwin, ao mostrar que o ser humano é fruto da evolução e não de uma criação divina exclusiva. * Ferida psíquica: com a própria psicanálise, ao mostrar que o sujeito não é senhor em sua própria casa, ou seja, o inconsciente governa parte de sua vida. No sujeito individual: A nível clínico, a ferida narcísica pode estar associada a: * Rejeições afetivas. * Perdas. * Fracassos. * Críticas que atingem a imagem ideal do eu. *Descobertas traumáticas sobre si mesmo (ex: limites, desejos recalcados, angústias). Essas situações fazem o sujeito confrontar a castração simbólica — o fato de que ele não é tudo, não tem tudo, não pode tudo — o que pode gerar dor psíquica, mas também pode ser um ponto importante para a entrada no tratamento. Na clínica lacaniana: Em Lacan, a ferida narcísica aparece frequentemente ligada: * Ao estádio do espelho: onde o sujeito se identifica com uma imagem ideal, mas paga o preço da alienação. * À castração simbólica: momento em que o sujeito se separa do desejo do Outro, reconhecendo que há uma falta estrutural. * Ao abalo do eu ideal (Ich-Ideal): quando o sujeito percebe que não corresponde ao olhar idealizante que esperava de si ou dos outros. Importância clínica: Identificar feridas narcísicas no discurso de um paciente pode ajudar a compreender impasses no tratamento, a acessar o ponto de sofrimento real além do sintoma, e a trilhar caminhos para o sujeito se confrontar com sua verdade, não com o ideal.

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