terça-feira, 6 de maio de 2025
O Estranho conforto da dor: Porque escolhemos o sofrimento na Psicanálise?
Na vastidão da experiência humana, emerge uma indagação paradoxal que ecoa nos consultórios de psicanálise: por que, em certos momentos, indivíduos parecem gravitacionalmente atraídos ao sofrimento, resistindo ativamente à mudança e ao alívio? Longe de uma masoquista consciente, essa preferência pelo mal-estar psíquico reside em camadas profundas do nosso inconsciente, tecidas pelas intrincadas relações entre o Real, o Simbólico e o Imaginário, conforme a lente lacaniana.
A psicanálise nos ensina que não somos mestres em nossa própria casa psíquica. Nossas escolhas, mesmo as aparentemente autodestrutivas, carregam consigo uma lógica inconsciente, uma economia libidinal particular. O sofrimento, por mais paradoxal que pareça, pode, em certas configurações, oferecer ganhos secundários, manter laços objetais patológicos ou, fundamentalmente, nos ancorar em uma identidade familiar e previsível, ainda que dolorosa.
Um dos pilares para entender essa dinâmica reside no conceito de gozo (jouissance) em Lacan. Diferente do prazer homeostático, o gozo transcende a simples satisfação, carregando consigo uma dimensão de excesso, de repetição compulsiva e, por vezes, de dor. O sujeito pode se fixar em um modo de sofrimento que, paradoxalmente, lhe oferece uma forma distorcida de satisfação, uma maneira de se sentir vivo ou de manter uma ligação, ainda que destrutiva, com o Outro (o campo do Simbólico e do desejo do outro).
Considere, por exemplo, uma pessoa que se mantém em relacionamentos abusivos. A nível consciente, ela pode desejar a liberdade e o bem-estar. No entanto, inconscientemente, essa dinâmica pode reeditar padrões familiares de dor e submissão, oferecendo uma familiaridade angustiante, mas conhecida. A ruptura com esse padrão implicaria confrontar o desconhecido, a angústia da falta e a necessidade de construir uma nova identidade desvinculada da dor. O sofrimento, nesse caso, funciona como um laço, ainda que enferrujado, com o Outro.
Outra perspectiva crucial envolve a identificação imaginária. Construímos nosso "eu" a partir das imagens que internalizamos, muitas vezes marcadas pela falta e pela dor. Se a história familiar ou as primeiras relações foram permeadas pelo sofrimento, o indivíduo pode, inconscientemente, se identificar com essa imagem sofredora, reproduzindo-a em suas próprias vidas como uma forma de manter uma coerência interna, ainda que disfuncional. A ideia de uma vida sem esse sofrimento pode ser estranha, até mesmo ameaçadora para a precária construção do seu "eu".
Além disso, o sofrimento pode, ironicamente, conferir um certo status ou atenção dentro de um sistema familiar ou social. Aquele que sofre pode se tornar o centro das atenções, mobilizando cuidados e preocupações, mesmo que a um custo emocional elevado. Essa dinâmica, embora não seja uma escolha consciente, pode reforçar a permanência no sofrimento como uma forma de obter reconhecimento e evitar o vazio da indiferença.
A resistência à mudança também se liga à força da repetição (Trieb), a pulsão que nos impele a retornar a padrões conhecidos, mesmo que dolorosos. O novo, o desconhecido, evoca angústia, enquanto o sofrimento familiar, por mais destrutivo que seja, oferece uma falsa sensação de controle e previsibilidade.
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