quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

“Entre o curso e a vida”

Ela chega apressada, como se cada palavra precisasse correr para não ficar para trás. Fala de três horas de ida e três de volta, do novo trabalho, das metas de contenção física impostas pela Secretaria de Saúde — “é vida, né?”, diz, entre espanto e resignação. Há um excesso que atravessa tudo: o ritmo, as vozes, as decisões, o próprio corpo que se vê tomado pela urgência do mundo e pela necessidade de dar conta. Entre uma fala e outra, surge o verdadeiro impasse: trancar o curso ou mudar de cidade. Ficar perto dos sobrinhos e dos bichos, ou seguir com o sonho da formação. “Se eu ficar, perco a aula; se eu for, perco o afeto.” O cálculo é infinito. Cada possibilidade é uma peça movida no tabuleiro para adiar o xeque-mate da escolha. A culpa aparece como sombra de qualquer decisão: culpar-se por adiar, culpar-se por escolher. No fundo, trata-se de uma tentativa de escapar ao impossível da perda, a castração que toda escolha implica. Ela tenta prolongar a angústia para não decidir, como quem teme encontrar no ato o preço do desejo. O discurso se endereça ao analista na forma de demanda: __ “O que você acha que eu devo fazer?” Mas o que se escuta ali não é um pedido de conselho, é o apelo a um Outro que autorize seu desejo. A intervenção possível não é responder, mas devolver a pergunta deslocada: __ “O que seria bom para você?” É nesse instante que algo vacila. A fala, antes apressada, tropeça. Surge o espaço da falta, o início de uma escuta do próprio desejo, para além da culpa e do ideal de dar conta de tudo. A análise se orienta por esse vazio: fazer surgir o sujeito que fala quando o Outro não responde.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

“O choro como último ponto de fuga”

Paciente (voz quase inaudível, olhar baixo): Eu não consigo mais segurar... parece que tudo escapa. Eu começo a chorar do nada. No trabalho, no ônibus... em casa. Eu tento disfarçar, mas não dá. O choro vem... e vem forte. Parece que é o único lugar onde eu ainda existo. (Silêncio longo. O analista a observa, presente, respirando junto.) Analista (depois de alguns segundos): O choro... como um jeito de existir. Paciente: Sim. Porque quando eu choro... é como se eu me lembrasse de mim. Mas depois me culpo e fico achando que sou fraca, descontrolada. Analista: Talvez o choro não seja fraqueza, mas a parte de você que ainda tenta se manter viva. A que não aguenta mais segurar tudo sozinha. Paciente (começa a chorar, sem palavras por um tempo). (O analista não interrompe. O silêncio é acolhedor, continência corporal, presença silenciosa.) Analista (voz suave, após o fluxo de lágrimas): O corpo parece ter encontrado um modo próprio de falar... E você está conseguindo escutar agora. Paciente: É... eu acho que nunca tinha deixado ele falar tanto assim. Sempre calei. Mas hoje... parece que não dava mais. Analista: Ferenczi diria que às vezes o corpo grita quando as palavras ficaram tempo demais presas. E que esse choro, quando acolhido, pode virar palavra um dia, mas só depois que for sentido. (A paciente respira fundo, como se algo se abrisse.)

terça-feira, 21 de outubro de 2025

A psicanálise em urgência social: a escuta possível no tempo do impossível

A expressão urgência social designa um campo onde a exclusão, a violência e o desamparo não são exceções, mas o próprio tecido da experiência subjetiva. É nesse território que a psicanálise, frequentemente convocada de modo inesperado, precisa inventar novas formas de presença. Se nas origens, com Freud, a clínica se deu entre quatro paredes, hoje ela se abre ao espaço público, nas unidades de saúde, nos abrigos, nos serviços de assistência social, nos territórios afetados pela miséria e pelo colapso simbólico. A escuta analítica, deslocada de seu enquadre tradicional, mantém, porém, seu ponto ético: o sujeito. Na urgência, o analista não dispõe do tempo da transferência construída, mas de um instante de encontro. A operação analítica, então, reduz-se ao essencial: fazer existir um sujeito de palavra onde antes só havia demanda, queixa ou silêncio. É uma clínica de brechas, que aposta em um mínimo de simbolização possível. A direção do trabalho não é adaptar o sujeito às condições sociais impostas, mas possibilitar uma mínima inscrição do desejo, mesmo sob a pressão do real da exclusão. Cada gesto de escuta, cada palavra que não recua diante do sofrimento, reinscreve o sujeito na linguagem e é nesse ponto que a psicanálise se torna, mais do que nunca, ato político. Em meio à urgência, o analista não responde à pressa do Outro, mas sustenta a espera. Faz da precariedade um campo de invenção, e do impossível, um lugar de escuta.

Entre o mar e a palavra: o dispositivo analítico em movimento

Ela voltou depois de meses. Disse que não conseguia mais “ficar fechada” — nem em casa, nem no consultório. Falava de uma sensação de ar rarefeito, como se a vida tivesse se estreitado desde a morte do pai. “Preciso andar, senão travo”, ela disse, e esse pedido carregava algo do corpo que buscava reencontro com o ar, com o fora, com o movimento. Propus que caminhássemos à beira-mar, mantendo o mesmo horário das sessões. Não era uma concessão à demanda de fuga, mas um modo de sustentar o dispositivo analítico em outra topologia, onde o espaço aberto não dissolvesse o enquadre simbólico. O tempo, o pacto e o silêncio estavam ali. A diferença é que o som do mar agora fazia parte da escuta. Nos primeiros encontros, as palavras vieram em fluxo contínuo, como o passo sobre a areia. O ritmo da caminhada parecia convocar o inconsciente a se mover também: lembranças do pai, o hospital, o enterro, a casa vazia, o cheiro do café que ele fazia nas manhãs de domingo. Falava de saudade como quem fala de uma ferida que ainda respira. De repente, parou. Olhou o mar e disse: “É como se ele fosse ele. E eu, sempre tentando alcançar o que já foi levado.” O mar, ali, tornou-se figura simbólica do luto: o movimento incessante do que vai e volta, mas nunca devolve o que se perdeu. Naquele instante, o dispositivo mostrava sua potência: não se tratava da praia como cenário, mas do encontro com o limite, com a borda entre o dentro e o fora, o som e o silêncio, o vivo e o ausente. Em uma dessas caminhadas, ela perguntou: “Será que ele volta?” O silêncio que seguiu não buscou responder, mas deixou a pergunta cair no rumor das ondas, onde o eco do impossível pôde se inscrever. A cena revelou o essencial: a escuta analítica não se define pelo lugar físico, mas pela função simbólica que o analista sustenta. O mar tornou-se o outro da palavra: ali onde o sujeito toca a falta, o impossível de dizer. A praia, longe de ser um cenário terapêutico relaxante, operava como uma borda, o espaço onde o real se apresenta, onde o sujeito se arrisca a falar de novo.

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Quando o Controle Falha: Sobre Frustração, Choro e Maternidade

Recentemente, uma paciente compartilhou uma situação comum, mas carregada de emoção: uma viagem complicada, um voo perdido, malas para carregar, uma criança pequena e horas de espera no aeroporto. O que parecia apenas um contratempo cotidiano se transformou em um momento de colapso emocional, marcado por choro, raiva e sensação de impotência. “Eu comecei a chorar desesperadamente… parecia que eu estava mostrando uma fraqueza.” No consultório, percebemos que esses momentos de perda de controle são, muitas vezes, pontos em que o real irrompe — situações que não podem ser totalmente planejadas ou controladas. Para essa paciente, o choro não é fraqueza: é um sinal do que não se simboliza, do que exige ser ouvido. Curiosamente, a filha pequena assumiu um papel de “apoio emocional” durante o episódio, mostrando que, às vezes, os filhos percebem nossa vulnerabilidade melhor do que nós mesmos. Esse episódio revela a tensão entre o ideal de mãe perfeita e firme e a realidade inevitável de não controlar tudo. Na escuta psicanalítica, propomos acolher esses momentos, sem tentar reprimi-los ou “consertá-los” imediatamente. É na angústia, no choro, na frustração que surgem sinais importantes sobre nossos limites, nossas responsabilidades e nossos desejos. A reflexão final é simples, mas profunda: o cotidiano nos confronta com o real de formas inesperadas. Reconhecer e acolher nossa vulnerabilidade nos permite estar presentes para nós mesmos e para quem amamos, sem nos perder na busca impossível pela perfeição.

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

O impacto emocional de uma criança quando os pais se separam mas continuam residindo na mesma casa.

Essa é uma situação bastante complexa e, de fato, pode ter impactos emocionais significativos na criança, justamente por envolver uma ambiguidade de posições e funções parentais. Quando os pais se separam, mas continuam morando juntos, o discurso e o laço entre eles mudam, mas o espaço simbólico da casa não acompanha necessariamente essa mudança. Isso cria para a criança um campo de confusão: Confusão simbólica – A criança percebe que algo se rompeu (há tensão, afastamento, mudança no tom afetivo, ausência de gestos de casal), mas o cenário concreto, os dois ainda sob o mesmo teto, sugere que “a família segue igual”. Essa incongruência entre o que é visto e o que é vivido pode gerar angústia e incerteza: “Eles estão juntos ou não?” “Quem sou eu nesse novo arranjo?”. Impossibilidade de elaboração da perda – Toda separação implica um trabalho de luto: a criança precisa simbolizar que a forma antiga da família acabou. Mas se a separação não se traduz em uma separação espacial, a criança não consegue elaborar a perda, ela fica presa num tempo suspenso, esperando o retorno da unidade familiar. Risco de triangulação – Em contextos assim, é comum que um dos pais busque na criança um apoio emocional, confidências, alianças contra o outro. A criança passa a ocupar um lugar impróprio, de parceiro simbólico, o que a sobrecarrega psiquicamente e pode gerar sintomas como ansiedade, culpa, somatizações, ou retraimento. Ambivalência afetiva – O ambiente doméstico tende a oscilar entre momentos de aparente normalidade e tensões latentes. A criança vive um campo afetivo ambíguo, que pode levá-la a hipervigiar os pais, tentando “ler” o clima e controlar o que acontece, uma posição que impede o brincar e o desenvolvimento espontâneo. Risco de desmentido – Quando os adultos afirmam que “está tudo bem” ou que “nada mudou”, a criança se vê diante de um desmentido da própria percepção. Isso pode produzir efeitos de desrealização, confusão de linguagem e até sintomas de tipo fóbico ou obsessivo, como tentativa de restaurar alguma ordem simbólica. Em termos clínicos (orientação lacaniana): A questão central é o lugar que a criança passa a ocupar no desejo dos pais após a separação. Se o casal se separa, mas continua coabitando, o risco é que o sujeito infantil fique preso ao gozo do Outro, sem poder se constituir numa posição própria, pois a divisão dos lugares parentais e amorosos não se reconfigura de modo claro. O trabalho, nesse caso, tanto para os pais quanto na escuta da criança, seria introduzir significantes que permitam nomear e simbolizar a separação — dar-lhe lugar de palavra, e não apenas de fato vivido.

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

QUEM É O SUJEITO POR TRÁS DO CRACHÁ.

Quem é o sujeito por trás do crachá? No ambiente corporativo, é comum que as pessoas sejam reduzidas a funções, cargos, metas e resultados. Mas por trás do crachá, há alguém que sente, pensa, sofre e deseja. Há histórias que não cabem no organograma. Sintomas que não aparecem nos relatórios. Conflitos que se repetem sem explicação lógica. A psicanálise nos convida a lembrar que, antes de sermos “profissionais”, somos sujeitos. Com inconsciente, com passado, com dúvidas. Com um desejo que nem sempre se encaixa no script da empresa. Escutar o sujeito por trás do crachá é um gesto ético. E, muitas vezes, o início de uma verdadeira transformação no ambiente de trabalho.

segunda-feira, 16 de junho de 2025

POR QUE A PSICANÁLISE

**Por que Estudar Psicanálise?** Estudar psicanálise é mais do que adquirir um conhecimento técnico: é uma experiência transformadora. Através dela, mergulhamos no inconsciente, aprendemos a escutar o sofrimento do outro e, muitas vezes, iniciamos uma jornada de autoconhecimento. --- Compreender o Inconsciente A psicanálise nos ensina que nem tudo que sentimos ou fazemos é totalmente consciente. Sonhos, lapsos, sintomas e atos falhos revelam desejos recalcados e conflitos internos. > “O sujeito não é senhor em sua própria casa.” – Freud --- Aprender a escutar de verdade A escuta psicanalítica é radical: não julga, não corrige, não aconselha. Ela aposta na força da palavra, do silêncio e da escuta do que não foi dito. --- Aprofundar o autoconhecimento Estudar psicanálise é também se colocar em análise. É uma maneira de se aproximar de sua própria história, seus afetos, seus traumas, seus desejos. > "Todo analista foi antes analisante." – Lacan --- Atuar em múltiplos campos A psicanálise dialoga com diversas áreas: * Clínica e psicoterapia * Educação e orientação * Cultura, arte, literatura * Crítica social e política --- Participar de uma tradição ética e crítica A psicanálise não é um manual de respostas. É um compromisso com a escuta singular, com a ética do desejo e com o valor da palavra. Em um mundo acelerado, ela propõe tempo e escuta. --- Seja para transformar sua prática profissional, seja para compreender melhor a si mesmo e aos outros, estudar psicanálise é abrir um novo caminho de escuta, linguagem e desejo.

sexta-feira, 13 de junho de 2025

A CLÍNICA PSICANALITICA COM IDOSOS

A psicanálise com idosos é um campo em expansão que reconhece a importância de abordar as complexidades psíquicas e os desafios específicos do envelhecimento, como a vivência da finitude, a reflexão sobre a vida e a busca por significado. A teoria psicanalítica pode ajudar o idoso a lidar com questões como perda, luto, identidade e o significado do tempo, auxiliando-o a ressignificar sua experiência e a encontrar novas formas de lidar com o real.
Aspectos importantes da psicanálise com idosos: *A importância da escuta: A psicanálise proporciona um espaço para que o idoso possa expressar suas emoções, memórias e reflexões, sem a pressão do tempo ou da avaliação social. *O trabalho com a finitude e o luto: A psicanálise pode ajudar o idoso a lidar com a consciência da finitude da vida e a elaborar o luto por perdas, sejam elas físicas, sociais ou emocionais. *A busca por significado: O trabalho psicanalítico pode auxiliar o idoso a ressignificar sua história de vida e a encontrar novos objetivos e significados. *A singularidade do envelhecimento: É fundamental reconhecer que cada idoso envelhece de forma única, com suas próprias histórias e experiências. *O desafio do tempo: A psicanálise pode ajudar o idoso a lidar com a percepção do tempo e a buscar novas formas de viver no presente. *A importância da relação analítico: A relação entre o analista e o analisante é fundamental para o sucesso do tratamento, permitindo que o idoso se sinta seguro e confiante. Benefícios da psicanálise com idosos: *Melhora da qualidade de vida: A psicanálise pode ajudar o idoso a lidar com suas emoções e dificuldades, contribuindo para uma melhor qualidade de vida. *Redução do isolamento: O tratamento psicanalítico pode ajudar o idoso a se conectar com seus sentimentos e a encontrar novas formas de se relacionar. *Melhora do humor: A psicanálise pode ajudar o idoso a lidar com a tristeza e a depressão, contribuindo para uma melhora do humor. Fortalecimento da identidade: A psicanálise pode ajudar o idoso a ressignificar sua história de vida e a encontrar novos objetivos e significados. *Redução do estresse: A psicanálise pode ajudar o idoso a lidar com o estresse e a ansiedade, contribuindo para uma melhor saúde mental. Apesar da crescente atenção à importância da psicanálise com idosos, ainda há desafios a serem superados, como a falta de profissionais capacitados e a necessidade de uma maior sensibilização da sociedade sobre a importância da saúde mental na terceira idade.

quinta-feira, 29 de maio de 2025

FERIDA NARCÍSICA

Na psicanálise, "ferida narcísica" (ou "ferida narcísica do ego") refere-se a uma experiência subjetiva de abalo ou ruptura na autoimagem idealizada que o sujeito tem de si mesmo. É um conceito importante, especialmente nas obras de Freud e no desenvolvimento posterior da teoria psicanalítica. A ferida narcísica ocorre quando o sujeito se depara com algo que frustra, humilha ou desafia sua crença em sua própria completude, valor ou importância. É uma ameaça ao narcisismo, ou seja, à forma como o sujeito se ama, se reconhece e se idealiza. Em Freud: Freud usou a ideia de ferida narcísica em diversos momentos, inclusive em um sentido civilizacional. Ele propôs que a humanidade sofreu três grandes feridas narcísicas na história: * Ferida cosmológica: quando Copérnico demonstrou que a Terra não era o centro do universo. * Ferida biológica: com Darwin, ao mostrar que o ser humano é fruto da evolução e não de uma criação divina exclusiva. * Ferida psíquica: com a própria psicanálise, ao mostrar que o sujeito não é senhor em sua própria casa, ou seja, o inconsciente governa parte de sua vida. No sujeito individual: A nível clínico, a ferida narcísica pode estar associada a: * Rejeições afetivas. * Perdas. * Fracassos. * Críticas que atingem a imagem ideal do eu. *Descobertas traumáticas sobre si mesmo (ex: limites, desejos recalcados, angústias). Essas situações fazem o sujeito confrontar a castração simbólica — o fato de que ele não é tudo, não tem tudo, não pode tudo — o que pode gerar dor psíquica, mas também pode ser um ponto importante para a entrada no tratamento. Na clínica lacaniana: Em Lacan, a ferida narcísica aparece frequentemente ligada: * Ao estádio do espelho: onde o sujeito se identifica com uma imagem ideal, mas paga o preço da alienação. * À castração simbólica: momento em que o sujeito se separa do desejo do Outro, reconhecendo que há uma falta estrutural. * Ao abalo do eu ideal (Ich-Ideal): quando o sujeito percebe que não corresponde ao olhar idealizante que esperava de si ou dos outros. Importância clínica: Identificar feridas narcísicas no discurso de um paciente pode ajudar a compreender impasses no tratamento, a acessar o ponto de sofrimento real além do sintoma, e a trilhar caminhos para o sujeito se confrontar com sua verdade, não com o ideal.

terça-feira, 20 de maio de 2025

Por que meu filho se masturba?

“Descobrindo o corpo: A sexualidade infantil com acolhimento e respeito”. É comum que, em algum momento, pais ou responsáveis se surpreendam ao ver uma criança tocando os próprios genitais. A primeira reação costuma ser de espanto, preocupação ou até medo: “Será que tem algo errado com ela?”, “Isso é normal?”, “Preciso proibir?”. Antes de tudo, respire. A masturbação infantil é uma parte natural do desenvolvimento — e compreender isso pode ajudar a lidar com o tema com mais tranquilidade, acolhimento e responsabilidade. A descoberta do corpo começa cedo Desde os primeiros meses de vida, os bebês exploram o próprio corpo: mãos, pés, boca... e também a região dos genitais. Isso acontece porque o corpo é uma fonte de descobertas e sensações. Quando uma criança percebe que certo toque gera prazer ou conforto, ela tende a repetir. Essa curiosidade não tem um significado sexual como conhecemos na vida adulta. A criança ainda está formando sua relação com o corpo, com os limites e com o mundo à sua volta. O que a psicanálise diz sobre isso? A psicanálise — abordagem que estuda o desenvolvimento emocional e psíquico — entende que a sexualidade está presente desde a infância, mas de maneira muito diferente da sexualidade adulta. Entre os 3 e 6 anos, por exemplo, é comum que a criança atravesse uma fase em que os genitais se tornam uma área de interesse maior. Freud chamou esse momento de “fase fálica”, onde surgem perguntas como “de onde vêm os bebês?” ou “por que o corpo da mamãe é diferente do meu?”. Nessa fase, tocar-se pode ser uma forma de lidar com a curiosidade e com as sensações. Como os adultos devem reagir? A forma como os pais e cuidadores respondem a esse comportamento pode marcar profundamente a relação da criança com o próprio corpo e com a sexualidade no futuro. Evite gritar, punir ou envergonhar. Essas atitudes podem provocar sentimentos de culpa, medo ou repressão. Ao mesmo tempo, não é necessário fingir que nada está acontecendo. O ideal é conversar com naturalidade e cuidado: “Você está se tocando, né? Isso pode dar uma sensação boa, mas é algo que a gente faz em um lugar reservado, quando estiver sozinho.” Assim, você transmite a mensagem de que o corpo não é errado ou feio, mas que há limites e contextos sociais que precisam ser aprendidos. Quando se preocupar? A masturbação infantil, por si só, não é um problema. No entanto, vale atenção se o comportamento: for muito frequente e compulsivo; causar ferimentos ou machucados; vier acompanhado de falas ou comportamentos sexualizados demais para a idade; surgir após mudanças bruscas no ambiente familiar ou contato com conteúdos inapropriados. Nesses casos, é indicado buscar apoio profissional. E se o tema me causa incômodo? É comum que a sexualidade da criança desperte emoções fortes nos adultos: medo, raiva, vergonha... Às vezes, isso se relaciona com experiências dolorosas ou traumas do passado. Por isso, cuidar da própria história também faz parte de cuidar da criança. Se esse for o seu caso, considere buscar escuta terapêutica. Um ambiente acolhedor pode ajudar a diferenciar o que vem da criança e o que é da própria história do adulto. Em resumo: A masturbação infantil é uma expressão do desenvolvimento saudável. Ao acolher a curiosidade da criança com respeito, sem tabus ou punições, você ajuda a construir uma relação positiva com o corpo e com os sentimentos — um passo importante para um crescimento emocional mais livre e seguro.

quinta-feira, 8 de maio de 2025

O narcisismo e os casamentos sob a lente da psicanálise...

Ah, o narcisismo e os casamentos sob a lente da psicanálise... um tema fascinante e cheio de nuances! Na verdade, a psicanálise não fala exatamente de um "narcisismo da psicanálise" nos casamentos, mas sim sobre como dinâmicas narcísicas individuais e a forma como elas se entrelaçam podem moldar profundamente a relação conjugal. Pense bem: no início de um relacionamento, muitas vezes há uma idealização do outro. Enxergamos qualidades ampliadas e tendemos a minimizar ou ignorar as diferenças e possíveis dificuldades. Sob a perspectiva psicanalítica, essa idealização pode ter raízes em necessidades narcísicas. Projetamos no parceiro qualidades que gostaríamos de ter em nós mesmos ou que nos faltaram em experiências passadas. É como se o outro nos completasse de alguma forma, nutrindo nosso senso de valor e autoestima. No entanto, com o tempo, a realidade da convivência se impõe. As diferenças se tornam mais evidentes, as expectativas podem não se concretizar da forma idealizada, e as projeções começam a cair. É nesse momento que as dinâmicas narcísicas individuais podem se manifestar de maneiras diversas no casamento: Necessidade excessiva de admiração: Um dos parceiros pode buscar constantemente a aprovação e o reconhecimento do outro para se sentir valorizado. A falta dessa admiração pode gerar frustração, raiva e até mesmo comportamentos manipuladores. Dificuldade em reconhecer o outro como um indivíduo separado: Pode haver uma tendência a ver o cônjuge como uma extensão de si mesmo, com pouca tolerância para opiniões, desejos ou necessidades diferentes. Isso pode levar a conflitos e a uma sensação de sufocamento na relação. Competição e inveja: Em alguns casos, pode surgir uma dinâmica de competição entre os parceiros, onde o sucesso ou a felicidade de um pode ser sentido como uma ameaça ao próprio valor. A inveja pode corroer a intimidade e a parceria. Onipotência e desvalorização: Um parceiro pode se colocar em uma posição de superioridade, desvalorizando as opiniões e os sentimentos do outro. Isso mina a igualdade e o respeito mútuo, pilares de um relacionamento saudável. Hipersensibilidade à crítica: Pessoas com traços narcísicos podem reagir de forma exagerada a críticas, mesmo que construtivas, sentindo-se profundamente magoadas ou atacadas. Isso dificulta a comunicação aberta e a resolução de conflitos. É importante ressaltar que todos nós temos aspectos narcísicos em nossa personalidade em alguma medida. O problema surge quando esses traços são excessivos e inflexíveis, causando sofrimento para si mesmo e para o parceiro. A psicanálise oferece um espaço para explorar essas dinâmicas inconscientes dentro do casamento. Através da terapia de casal com uma abordagem psicanalítica, os parceiros podem começar a compreender as origens de seus padrões de relacionamento, as necessidades narcísicas em jogo e como elas afetam a dinâmica conjugal. O objetivo não é eliminar o narcisismo (o que seria impossível e até mesmo prejudicial), mas sim torná-lo mais consciente e integrado, permitindo uma relação mais realista, empática e saudável. Em resumo, a psicanálise nos ajuda a entender como o narcisismo individual de cada cônjuge se manifesta e interage na relação matrimonial, influenciando a forma como eles se veem, se relacionam e lidam com os desafios da vida a dois. Ao trazer à luz essas dinâmicas inconscientes, a terapia pode abrir caminho para um relacionamento mais autêntico e satisfatório para ambos.

terça-feira, 6 de maio de 2025

A PSICANÁLISE COM ADOLESCENTES: OS DESAFIOS DO SÉCULO XXI.

A psicanálise com adolescentes possui especificidades importantes que a diferenciam do trabalho com crianças e adultos. A adolescência é um período de intensas transformações físicas, hormonais, emocionais, sociais e psíquicas, marcando a transição da infância para a vida adulta. Nesse contexto, a psicanálise oferece um espaço de escuta e elaboração para os desafios únicos dessa fase. Principais Características e Como Funciona: Setting Terapêutico Adaptado: O setting (ambiente da terapia) precisa ser flexível e adaptado às necessidades do adolescente. O divã, por exemplo, pode não ser adequado inicialmente. O analista pode optar por encontros "face a face" e incorporar outros recursos como desenhos, jogos (em menor grau que com crianças), filmes, músicas ou discussões sobre temas de interesse do adolescente para facilitar a expressão. Linguagem e Comunicação: A linguagem do adolescente é muitas vezes marcada por gírias, silêncios, expressões corporais e acting-out (atuação de conflitos em vez de verbalização). O analista precisa estar atento a essas formas de comunicação, buscando traduzir e dar sentido ao que está sendo expresso, mesmo que não verbalmente. Resistência e Desconfiança: Adolescentes frequentemente chegam à terapia por pressão dos pais ou responsáveis, o que pode gerar resistência, desconfiança e dificuldade em se engajar no processo. Construir uma relação de confiança e um espaço seguro é fundamental. O analista precisa validar os sentimentos do adolescente, sem julgamentos, para que ele se sinta à vontade para se expressar. Foco nos Temas Adolescentes: Os temas trazidos pelos adolescentes geralmente envolvem: Crise de identidade: Busca por "quem eu sou", dúvidas sobre sexualidade, identidade de gênero, valores e projetos de vida. Relações: Conflitos com pais, irmãos, amigos, namoros, a pressão do grupo e a necessidade de pertencimento. Corpo e imagem: Luta com as mudanças corporais da puberdade, questões de autoestima e a influência da mídia. Estudos e futuro: Ansiedade em relação ao desempenho escolar, escolhas profissionais e o futuro. Conflitos internos: Angústia, ansiedade, depressão, sentimentos de inadequação, raiva e frustração. Experimentação e limites: Busca por autonomia, transgressão de regras e a experimentação de comportamentos de risco. Transferência Específica: A transferência (relação emocional inconsciente que o paciente estabelece com o analista) com adolescentes pode ser intensa e marcada por idealização, rejeição, busca por figuras parentais substitutas ou até mesmo paixonites. O analista precisa manejar essas transferências com cuidado, ajudando o adolescente a diferenciar a figura do analista das figuras parentais e a elaborar seus sentimentos. Trabalho com os Pais: O trabalho com os pais ou responsáveis é geralmente necessário, mas com cautela. O analista precisa equilibrar a confidencialidade da relação terapêutica com o adolescente e a necessidade de informar os pais sobre questões importantes, especialmente aquelas relacionadas à segurança do jovem. A colaboração com os pais pode ser fundamental para o sucesso do tratamento, mas o foco principal da análise é o adolescente. Tempo do Tratamento: O tempo da análise com adolescentes pode variar bastante, dependendo da intensidade dos conflitos e do ritmo do paciente. É importante respeitar o tempo do adolescente e não forçar processos. Objetivos da Análise: Os objetivos da análise com adolescentes geralmente incluem: Promover o autoconhecimento e a elaboração dos conflitos internos. Fortalecer o Ego e a capacidade de lidar com as demandas da vida. Favorecer a construção de uma identidade mais integrada e saudável. Melhorar as relações interpessoais. Reduzir a angústia e os sintomas. Estimular a autonomia e a capacidade de tomar decisões. Desafios para o Analista: Construir a confiança: Superar a resistência inicial e estabelecer um vínculo terapêutico genuíno. Manter a escuta aberta: Acolher as diversas formas de expressão do adolescente, mesmo as não verbais ou disruptivas. Tolerar a ambivalência: Lidar com as mudanças de humor e as contradições típicas da adolescência. Equilibrar a neutralidade e o acolhimento: Ser um ouvinte atento e compreensivo, sem se aliar excessivamente ao adolescente contra os pais ou vice-versa. Saber quando intervir: Encontrar o momento certo para as interpretações, sem ser invasivo ou prematuro. Lidar com acting-out: Compreender as atuações como formas de comunicação e trabalhar para que o adolescente possa verbalizar seus conflitos. A psicanálise oferece aos adolescentes um espaço valioso para explorar seus mundos internos complexos, encontrar sentido em suas experiências e construir um caminho mais saudável para a vida adulta. Requer do analista sensibilidade, paciência e uma escuta especializada para as particularidades dessa fase do desenvolvimento.

POR QUE MENTIMOS PARA NÓS MESMOS?

Na visão psicanalítica, mentimos para nós mesmos, ou seja, acionamos mecanismos de defesa, por diversas razões fundamentais, todas ligadas à necessidade de proteger o Ego de conteúdos psíquicos que seriam dolorosos, ansiogênicos, ameaçadores ou inaceitáveis para a nossa consciência. Aqui estão os principais motivos: Evitar a dor e o desprazer: O princípio do prazer, fundamental na teoria psicanalítica, nos impulsiona a buscar o prazer e evitar a dor. Verdades sobre nós mesmos podem ser extremamente dolorosas (reconhecer falhas, traumas, desejos considerados imorais, etc.). A mentira para si serve como um analgésico psíquico imediato, evitando o confronto com essa dor. Preservar a autoestima e o narcisismo: A imagem que construímos de nós mesmos é importante para a nossa saúde psíquica. Reconhecer aspectos negativos, inadequações ou fracassos pode abalar essa imagem e ferir nosso narcisismo. Mentir para si mesmo ajuda a manter uma visão idealizada de nós, mesmo que distorcida da realidade. Lidar com a culpa e a vergonha: Desejos, fantasias ou ações que consideramos moralmente errados ou socialmente inaceitáveis podem gerar intensa culpa e vergonha. A mentira interna permite negar ou distorcer esses aspectos, aliviando o peso dessas emoções. Manter a coerência e a estabilidade psíquica: O Ego busca a coerência e a estabilidade. Confrontar contradições internas, desejos ambivalentes ou experiências traumáticas pode gerar um grande desconforto psíquico. A mentira para si ajuda a criar uma narrativa interna mais consistente e a manter um senso de identidade estável, mesmo que baseado em ilusões. Reprimir desejos inaceitáveis: O inconsciente abriga desejos que a consciência considera proibidos (sexuais, agressivos, etc.). A mentira para si pode envolver negar a existência desses desejos ou racionalizá-los de forma a torná-los mais aceitáveis, evitando o conflito entre o Id (pulsões) e o Superego (moral). Repetir padrões familiares ou internalizados: Inconscientemente, podemos repetir padrões de negação ou distorção da realidade aprendidos em nosso ambiente familiar. Se crescemos em um ambiente onde certas verdades eram evitadas, podemos internalizar essa forma de lidar com a realidade. Resistir à mudança: Confrontar a verdade sobre nós mesmos muitas vezes implica a necessidade de mudar, o que pode gerar ansiedade e resistência. A mentira interna pode ser uma forma de evitar essa mudança, mantendo o status quo, mesmo que disfuncional. Em suma, a mentira para si mesma, na perspectiva psicanalítica, é uma estratégia inconsciente de autopreservação psíquica. Embora possa trazer alívio imediato, a longo prazo, ela impede o acesso à verdade sobre si, dificultando o autoconhecimento, a resolução de conflitos e o desenvolvimento de uma saúde mental mais robusta. A terapia psicanalítica busca justamente desvelar essas "mentiras" internas, tornando o inconsciente mais consciente para que o indivíduo possa viver de forma mais autêntica e integrada.

O Estranho conforto da dor: Porque escolhemos o sofrimento na Psicanálise?

Na vastidão da experiência humana, emerge uma indagação paradoxal que ecoa nos consultórios de psicanálise: por que, em certos momentos, indivíduos parecem gravitacionalmente atraídos ao sofrimento, resistindo ativamente à mudança e ao alívio? Longe de uma masoquista consciente, essa preferência pelo mal-estar psíquico reside em camadas profundas do nosso inconsciente, tecidas pelas intrincadas relações entre o Real, o Simbólico e o Imaginário, conforme a lente lacaniana. A psicanálise nos ensina que não somos mestres em nossa própria casa psíquica. Nossas escolhas, mesmo as aparentemente autodestrutivas, carregam consigo uma lógica inconsciente, uma economia libidinal particular. O sofrimento, por mais paradoxal que pareça, pode, em certas configurações, oferecer ganhos secundários, manter laços objetais patológicos ou, fundamentalmente, nos ancorar em uma identidade familiar e previsível, ainda que dolorosa. Um dos pilares para entender essa dinâmica reside no conceito de gozo (jouissance) em Lacan. Diferente do prazer homeostático, o gozo transcende a simples satisfação, carregando consigo uma dimensão de excesso, de repetição compulsiva e, por vezes, de dor. O sujeito pode se fixar em um modo de sofrimento que, paradoxalmente, lhe oferece uma forma distorcida de satisfação, uma maneira de se sentir vivo ou de manter uma ligação, ainda que destrutiva, com o Outro (o campo do Simbólico e do desejo do outro). Considere, por exemplo, uma pessoa que se mantém em relacionamentos abusivos. A nível consciente, ela pode desejar a liberdade e o bem-estar. No entanto, inconscientemente, essa dinâmica pode reeditar padrões familiares de dor e submissão, oferecendo uma familiaridade angustiante, mas conhecida. A ruptura com esse padrão implicaria confrontar o desconhecido, a angústia da falta e a necessidade de construir uma nova identidade desvinculada da dor. O sofrimento, nesse caso, funciona como um laço, ainda que enferrujado, com o Outro. Outra perspectiva crucial envolve a identificação imaginária. Construímos nosso "eu" a partir das imagens que internalizamos, muitas vezes marcadas pela falta e pela dor. Se a história familiar ou as primeiras relações foram permeadas pelo sofrimento, o indivíduo pode, inconscientemente, se identificar com essa imagem sofredora, reproduzindo-a em suas próprias vidas como uma forma de manter uma coerência interna, ainda que disfuncional. A ideia de uma vida sem esse sofrimento pode ser estranha, até mesmo ameaçadora para a precária construção do seu "eu". Além disso, o sofrimento pode, ironicamente, conferir um certo status ou atenção dentro de um sistema familiar ou social. Aquele que sofre pode se tornar o centro das atenções, mobilizando cuidados e preocupações, mesmo que a um custo emocional elevado. Essa dinâmica, embora não seja uma escolha consciente, pode reforçar a permanência no sofrimento como uma forma de obter reconhecimento e evitar o vazio da indiferença. A resistência à mudança também se liga à força da repetição (Trieb), a pulsão que nos impele a retornar a padrões conhecidos, mesmo que dolorosos. O novo, o desconhecido, evoca angústia, enquanto o sofrimento familiar, por mais destrutivo que seja, oferece uma falsa sensação de controle e previsibilidade.

sexta-feira, 2 de maio de 2025

Sándor Ferenczi: um pensador à frente de seu tempo

Sándor Ferenczi foi um dos colaboradores mais próximos de Freud e um pensador original cujas ideias, embora nem sempre totalmente compreendidas ou aceitas em sua época, tiveram um impacto significativo e continuam a ressoar na psicanálise do século XXI. Seus principais conceitos e contribuições incluem: Principais Conceitos Elaborados por Ferenczi: Ênfase no Trauma Real: Diferentemente de uma ênfase inicial de Freud nas fantasias infantis como a principal etiologia das neuroses, Ferenczi progressivamente valorizou o impacto de eventos traumáticos reais na infância, especialmente abusos e negligência. Ele argumentava que o trauma deixa marcas profundas na psique e influencia o desenvolvimento da personalidade e a formação de sintomas. Identificação com o Agressor: Ferenczi descreveu detalhadamente esse mecanismo de defesa, no qual a vítima de trauma internaliza as características e atitudes do agressor como uma forma de sobreviver psiquicamente à situação de impotência e perigo. Esse conceito é fundamental para entender dinâmicas de poder e relações abusivas. Confusão de Línguas entre Adultos e a Criança: Este conceito crucial descreve a falha na comunicação afetiva entre adultos e crianças traumatizadas. O adulto, muitas vezes negando ou minimizando o trauma, fala uma "língua" de racionalização e negação, enquanto a criança vivencia a dor e o terror em outra "língua" de afetos intensos e não verbalizados. Essa falta de sintonia leva a um profundo sentimento de incompreensão e isolamento na criança. A Importância da Contratransferência: Ferenczi foi um dos primeiros psicanalistas a reconhecer a importância da contratransferência, ou seja, os sentimentos e reações do analista em relação ao paciente. Ele via a contratransferência não apenas como um obstáculo, mas também como uma fonte valiosa de informação sobre o mundo interno do paciente e o impacto que ele tem nos outros. Atividade na Técnica Psicanalítica (Técnica Ativa): Em certos momentos do tratamento, especialmente quando havia estagnação, Ferenczi propunha uma intervenção mais ativa do analista, através de sugestões, proibições ou mesmo a encenação de situações. O objetivo era mobilizar o psiquismo do paciente e trazer à tona material reprimido. Embora essa técnica tenha sido controversa e posteriormente modificada por Ferenczi, ela sinalizava sua busca por abordagens mais responsivas às necessidades do paciente. Elasticidade da Técnica e "Cura pelo Amor": Em seus últimos trabalhos, Ferenczi enfatizou a necessidade de uma maior flexibilidade e sensibilidade por parte do analista. Ele valorizava a empatia, o acolhimento e uma atmosfera de "amor" terapêutico como elementos essenciais para a cura, especialmente em casos de pacientes gravemente traumatizados. Ele reconhecia que a relação terapêutica em si tinha um potencial transformador. O Diálogo dos Inconscientes: Ferenczi vislumbrava a análise como um encontro genuíno entre dois inconscientes, onde a receptividade do analista às comunicações sutis do paciente poderia revelar aspectos desconhecidos de ambos. Contribuição para a Psicanálise do Século XXI: A obra de Ferenczi experimentou um renascimento significativo nas últimas décadas e sua contribuição para a psicanálise do século XXI é cada vez mais reconhecida e valorizada: Fundamentos para a Psicanálise Relacional: A ênfase de Ferenczi na intersubjetividade, na importância da relação terapêutica e na análise da contratransferência pavimentou o caminho para o desenvolvimento da psicanálise relacional. Suas ideias sobre o impacto do ambiente interpessoal na formação da psique e a necessidade de uma postura analítica mais responsiva e empática são centrais nessa abordagem contemporânea. Teoria do Trauma e sua Aplicação Clínica: A visão de Ferenczi sobre o trauma, com sua ênfase na realidade dos eventos e nas consequências da "confusão de línguas", é extremamente relevante para a compreensão e o tratamento de pacientes traumatizados. Seus conceitos influenciaram as atuais teorias do trauma e as abordagens clínicas sensíveis ao trauma. Relevância para Casos "Difíceis": A disposição de Ferenczi em trabalhar com pacientes considerados "difíceis" e sua busca por técnicas mais ativas e flexíveis oferecem insights valiosos para o tratamento de quadros clínicos complexos, como transtornos de personalidade e pacientes com histórico de grave traumatização. Ética do Cuidado e Empatia: A valorização da empatia, da autenticidade e do cuidado na relação terapêutica, defendida por Ferenczi, ressoa com as preocupações éticas contemporâneas na psicanálise. Sua ênfase na necessidade de o analista reconhecer seu próprio impacto no paciente e de criar um ambiente de segurança e confiança é fundamental para uma prática clínica ética e eficaz. Antecipação de Conceitos Posteriores: Algumas das ideias de Ferenczi, como a ênfase na comunicação não verbal e na dimensão implícita da relação, anteciparam desenvolvimentos posteriores na psicanálise e em outras áreas da psicoterapia. Em resumo, Ferenczi foi um pensador à frente de seu tempo, cuja ênfase na realidade do trauma, na intersubjetividade e na importância da relação terapêutica o coloca como uma figura central para a psicanálise do século XXI. Sua obra continua a inspirar novas pesquisas e abordagens clínicas, oferecendo uma perspectiva mais humana e relacional para a compreensão do sofrimento psíquico.

terça-feira, 22 de abril de 2025

A TRANSFERÊNCIA ERÓTICA NA CLÍNICA

A transferência erótica, dentro da teoria psicanalítica, refere-se ao fenômeno em que um paciente desenvolve sentimentos de natureza romântica, sexual ou de intensa atração pessoal em relação ao seu analista. É importante entender que essa transferência não se baseia na realidade da relação terapêutica, mas sim na reedição de padrões de relacionamento e desejos inconscientes do paciente, deslocados para a figura do analista. Para a psicanálise, a transferência em si é um fenômeno fundamental no processo terapêutico. Ela ocorre quando o paciente projeta no analista sentimentos, desejos, expectativas e padrões de relacionamento que foram significativos em sua história, geralmente relacionados às figuras parentais ou outros relacionamentos primários. A transferência pode ser positiva (sentimentos de carinho, admiração) ou negativa (sentimentos de hostilidade, raiva). A transferência erótica é uma forma específica de transferência positiva, onde esses sentimentos positivos adquirem uma conotação erótica. Isso pode se manifestar de diversas maneiras, desde fantasias românticas ou sexuais sobre o analista até tentativas de aproximação pessoal fora do setting terapêutico. Pontos importantes sobre a transferência erótica na psicanálise: Não é sobre o analista como indivíduo: Os sentimentos do paciente não são direcionados à pessoa real do analista, mas sim à imagem que ele representa, ativando dinâmicas psíquicas preexistentes. Resistência: Freud, em seus primeiros trabalhos, chegou a considerar a transferência erótica como uma forma de resistência ao tratamento. O paciente poderia usar esses sentimentos para desviar o foco dos seus conflitos internos e evitar o trabalho analítico. Material clínico valioso: Com o desenvolvimento da teoria psicanalítica, a transferência erótica passou a ser vista também como um material clínico importante. Analisar esses sentimentos pode fornecer insights profundos sobre os desejos inconscientes, as necessidades não atendidas e os padrões de relacionamento do paciente. Manejo delicado: O manejo da transferência erótica é crucial e exige grande habilidade e ética por parte do analista. É fundamental manter a neutralidade, não corresponder aos sentimentos do paciente e interpretar a dinâmica transferencial, ajudando o paciente a compreender a origem desses sentimentos e o que eles representam em sua história. Diferença entre transferência erótica e erotizada: Alguns autores distinguem a transferência erótica, que envolve sentimentos românticos e/ou sexuais, da transferência erotizada, que é caracterizada por uma necessidade compulsiva de gratificação erótica na relação analítica, podendo assumir formas mais acting-out e desafiadoras para o tratamento. Em resumo, a transferência erótica é um fenômeno complexo dentro do processo psicanalítico, onde o paciente vivencia sentimentos de atração romântica ou sexual pelo analista, revivendo dinâmicas do passado. Compreender e manejar adequadamente essa transferência é essencial para o progresso da análise e para a elaboração dos conflitos psíquicos do paciente.

INDICAÇÃO DE LEITURA

"Escuta Psicanalítica: Métodos, Limites e Inovações" de Salman Akhtar explora a arte da escuta na psicanálise, indo além da simples audição das palavras do paciente. Akhtar argumenta que a escuta psicanalítica é uma habilidade complexa e multifacetada que envolve sintonizar-se com diversos níveis de comunicação, tanto verbais quanto não verbais, conscientes e inconscientes. O livro detalha quatro tipos principais de escuta analítica: Escuta para o conteúdo manifesto: Prestar atenção explícita às queixas e preocupações conscientes do paciente. Escuta para o inconsciente: Tentar captar as mensagens latentes, os desejos e conflitos inconscientes expressos de forma indireta através de lapsos, sonhos, associações livres e linguagem corporal. Escuta da contratransferência: Utilizar as próprias reações emocionais e associações do analista como uma fonte valiosa de informação sobre o mundo interno do paciente e a dinâmica da relação terapêutica. Escuta do "terceiro analítico" (intersubjetiva): Compreender que a escuta é um processo interativo, moldado pela subjetividade tanto do paciente quanto do analista, e que a compreensão emerge da interação entre ambos. Akhtar também aborda a importância de escutar o silêncio e as ações do paciente, reconhecendo que estes também comunicam informações significativas. Ele discute as dificuldades e os limites da escuta, incluindo a "escuta pobre" e a "recusa a escutar", e explora as aplicações da escuta psicanalítica em contextos não clínicos. Em suma, o livro de Salman Akhtar oferece uma visão abrangente e enriquecedora sobre a escuta psicanalítica, destacando sua complexidade, seus métodos e seu papel fundamental no processo analítico como uma forma de "cura pela escuta". Ele encoraja os analistas a desenvolverem uma sensibilidade aguçada e uma postura aberta para captar as múltiplas camadas da experiência do paciente.

“Entre o curso e a vida”

Ela chega apressada, como se cada palavra precisasse correr para não ficar para trás. Fala de três horas de ida e três de volta, do novo tra...